Microbioma Yanomami, Ética e Verdade: Minha Resposta Pública
- David Good
- 1 day ago
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(Nota sobre a tradução: Esta versão em português foi preparada a partir da declaração original em inglês e revisada para maior clareza. Em caso de qualquer ambiguidade ou divergência, consulte a versão original em inglês.)
Publico abaixo minha resposta completa sobre a pesquisa do microbioma Yanomami, meu diálogo com comunidades do Rio Marauiá e as alegações recentes que circularam sobre meu trabalho no Brasil. Escrevo com respeito às instituições brasileiras, mas também com a responsabilidade de falar com minha própria voz, como cientista e como pessoa Yanomami. Meu objetivo é esclarecer os fatos, reafirmar meu compromisso com a ética em pesquisa e defender a importância de centralizar as vozes Yanomami em qualquer processo que envolva seu povo, seu território e seu futuro

27 de abril de 2026
Contexto
Meu nome é David Good, conhecido como Ayõpëwë entre meus parentes, familiares e amigos Yanomami. Meu shabono, minha comunidade de origem, é Irokaiteri, no Alto Orinoco, onde vivem minha mãe e meus parentes próximos. Sou Yanomami, e o território Yanomami é minha casa. Minha relação com essa terra e com esse povo vem do parentesco, da ancestralidade, de muitas visitas e de vínculos construídos ao longo dos anos com comunidades Yanomami na Venezuela e no Brasil.
Também sou cientista. Nos próximos meses, espero defender minha tese de doutorado no Departamento de Biologia Molecular e Celular da Universidade de Guelph. Talvez eu esteja entre os poucos Yanomami, e possivelmente seja o primeiro, a concluir um doutorado nessa área. Carrego essa responsabilidade com muita seriedade.
Minha ambição é contribuir para pesquisas importantes na área da saúde humana e, ao mesmo tempo, ajudar a construir um futuro em que os Yanomami estejam presentes na ciência como pesquisadores, lideranças e pessoas capazes de participar das decisões que dizem respeito ao seu próprio povo. Muitas vezes, povos indígenas são chamados para espaços acadêmicos apenas como símbolos, informantes ou sujeitos de pesquisa. Isso precisa mudar.
Essa mudança precisa acontecer em vários níveis: na forma como pesquisadores se relacionam com comunidades Yanomami no território, na forma como universidades financiam colaborações éticas e na forma como pessoas que detêm conhecimentos indígenas são reconhecidas nos sistemas acadêmicos como colegas e parceiras de pesquisa. Defendi esse argumento em um artigo de perspectiva recente, escrito em coautoria, Toward a Yanomami Framework for Ethical Microbiome Research. O artigo reúne lições da longa história de pesquisas com os Yanomami, incluindo as contribuições e falhas da antropologia, a sombra da controvérsia de Darkness in El Dorado, e minha própria experiência de campo, minha conexão familiar e minha formação científica.
A pesquisa sobre o microbioma ainda é uma área relativamente nova e em desenvolvimento. Por isso, busquei aprender muito com a antropologia, uma disciplina que há décadas realiza pesquisas entre os Yanomami e que também precisou enfrentar suas próprias falhas éticas. A partir da minha experiência de campo, da minha ligação familiar com o povo Yanomami e das lições da antropologia, uni-me a colegas para tentar avançar uma área de pesquisa profundamente importante não apenas para os Yanomami, mas também para o mundo. Faço isso como uma pessoa Yanomami, com o povo Yanomami.
A história da pesquisa envolvendo os Yanomami é complexa. Houve contribuições importantes, mas também houve exploração, extração e graves falhas de respeito. Para mim, essas realidades não são abstratas.
Com o passar dos anos, passei a entender que cumprir a lei, por si só, não responde às questões éticas mais profundas. Consulta prévia, consentimento informado e autorizações adequadas são essenciais, e eu respeito esses processos. Mas a aprovação administrativa é apenas o começo da responsabilidade ética, não o fim.
O que muitas vezes falta é uma referência ética Yanomami.
As comunidades entendem como a pesquisa pode ser usada? Elas participam de forma justa dos seus benefícios? Quem define o que conta como benefício? Os Yanomami são tratados de forma verdadeira como colaboradores, e não apenas como fonte de dados para carreiras acadêmicas? Os jovens Yanomami estão sendo apoiados para se tornarem cientistas, profissionais de saúde e lideranças em seus próprios termos?
Essas perguntas têm moldado meu trabalho. Elas não são apenas minhas perguntas. Depois de muitas conversas com lideranças Yanomami, ouvi delas as mesmas preocupações.
Minha pesquisa se concentra no microbioma intestinal humano, a grande comunidade de microrganismos que vive dentro de nós e desempenha papéis essenciais na imunidade, no metabolismo e na saúde. O povo Yanomami tem chamado a atenção da ciência porque algumas comunidades possuem uma diversidade microbiana extraordinária, oferecendo conhecimentos importantes sobre a relação entre ecologia, dieta e bem-estar humano.
Mas, para mim, essa pesquisa também levanta questões urgentes sobre mudança cultural, perturbação ambiental, transições alimentares e as consequências de longo prazo do contato rápido com a sociedade industrializada. Essas são mudanças que eu mesmo tenho testemunhado.
Em muitas comunidades ao longo do Rio Marauiá, no Brasil, tenho visto sistemas alimentares e práticas tradicionais sendo cada vez mais afetados por bens vindos de fora: tabaco comercial, alimentos ultraprocessados, açúcar refinado, macarrão branco e maior exposição a intervenções biomédicas, como antibióticos. Não digo isso para tratar as comunidades Yanomami de forma paternalista nem para condenar a mudança. Digo porque essas transições têm implicações para a saúde, inclusive para o microbioma, e porque os Yanomami têm o direito de compreender essa ciência.
Essa pesquisa também reforça uma ideia fundamental: a proteção da vida Yanomami e a proteção da Amazônia são inseparáveis.
A ciência não deve chegar apenas para extrair conhecimento e ir embora. Uma das críticas mais sérias que ouvi de comunidades Yanomami é que pesquisadores, de várias áreas, muitas vezes chegam, coletam o que precisam e depois desaparecem. Quem conhece bem a cultura Yanomami entende o quanto isso afeta profundamente a confiança. A pesquisa não deve ser uma transação. Ela deve ser uma relação.
O processo de pesquisa deve construir vínculos, compartilhar oportunidades, fortalecer capacidades locais e avançar com humildade. Esses princípios não são apenas meus. Eles são compartilhados por muitos pesquisadores, colaboradores e parceiros Yanomami no Brasil e na Venezuela, que há anos buscam imaginar formas mais respeitosas de fazer pesquisa.
Os Yanomami possuem um conhecimento profundo da floresta, dos sistemas alimentares, da ecologia e da sobrevivência que nenhum laboratório pode reproduzir. Quando diferentes sistemas de conhecimento se encontram com respeito mútuo, todos se beneficiam.
Este é o trabalho ao qual dediquei minha vida.
Ofereço esse contexto porque muito tem sido dito recentemente sobre mim e sobre minhas atividades em território Yanomami no Brasil. Rumores muitas vezes circulam mais rápido do que a verdade, e narrativas parciais podem rapidamente virar pressupostos públicos. Por isso, acredito que é necessário falar com clareza, com minha própria voz, e responder diretamente às acusações recentes.
A linha do tempo dos acontecimentos que levaram ao inquérito do MPF
Antes de apresentar essa linha do tempo, quero afirmar um ponto importante. O projeto de pesquisa do microbioma envolvendo comunidades da região do Rio Marauiá foi um projeto acadêmico liderado no Brasil e vinculado à Universidade Federal do ABC, UFABC. Nossa equipe entrou em agosto de 2023 com as autorizações adequadas e, mais importante, com autorização de comunidades Yanomami. Eu não era o pesquisador principal brasileiro, nem era o único responsável pelo trâmite administrativo das autorizações. Meu papel era o de colaborador científico, uma ponte Yanomami, e alguém comprometido em garantir que as vozes Yanomami fossem ouvidas ao longo do processo.
O projeto seguiu canais institucionais brasileiros e recebeu as aprovações relevantes naquele momento, incluindo publicação no Diário Oficial da União. O que posso afirmar diretamente são minhas próprias ações, minhas intenções e a sequência de acontecimentos que mais tarde se tornou objeto de rumores e de inquérito formal.
Antes de seguir com a linha do tempo, quero abordar diretamente duas questões administrativas, porque elas foram mencionadas publicamente e podem ser facilmente mal interpretadas.
Primeiro, nossa equipe havia recebido anteriormente uma manifestação favorável por escrito da FUNAI durante o processo mais amplo de autorização. As datas previstas de entrada para o trabalho de campo de 2023 foram comunicadas pelos canais institucionais apropriados e faziam parte do processo de autorização documentado no Diário Oficial da União. Posteriormente, depois que nosso trabalho de campo de 2023 já havia sido concluído, a equipe recebeu uma carta da FUNAI recomendando a reconsideração da entrada em território Yanomami, em razão da emergência de saúde pública e de preocupações com doenças respiratórias no território.
A sequência e o momento dessa comunicação geraram confusão, especialmente porque a equipe já havia recebido manifestação favorável da FUNAI como parte do processo de autorização.
Não posso falar com autoridade sobre as comunicações administrativas internas entre UFABC, FUNAI e outros órgãos brasileiros. Esses assuntos foram tratados pelos representantes institucionais brasileiros responsáveis. Meu entendimento, com base no que me foi comunicado pelas pessoas responsáveis, é que a UFABC deu seguimento à questão junto à FUNAI, que a confusão foi esclarecida, e que a equipe de pesquisa continua dando andamento à análise e deverá publicar os primeiros resultados a partir das amostras já coletadas.
Segundo, é verdade que a autorização do CNPq relacionada ao projeto foi posteriormente revogada em 2025. Esse fato deve ser declarado com clareza. Mas também deve ser declarado com precisão.
A equipe de pesquisa e o projeto como um todo receberam autorização oficial do CNPq em 2023 para o projeto “Estudo das funções imunomodulatórias da microbiota Yanomami”. Essa autorização incluía coleta de material biológico, participação de pesquisadores estrangeiros e trabalho em comunidades autorizadas na região do Marauiá, no Amazonas.
Embora a autorização tenha sido posteriormente revogada em 2025, uma revogação posterior não significa que o projeto nunca tenha tido autorização. Também não significa, automaticamente, que toda ação realizada sob essa autorização antes da revogação tenha sido ilegal.
Meu entendimento, com base em comunicações da pesquisadora principal brasileira, é que a revogação impediu novas coletas de campo sob aquela autorização, ao mesmo tempo em que permitiu a continuidade da análise das amostras já coletadas durante o período em que a autorização estava vigente.
Incluo esses detalhes porque a discussão pública às vezes mistura questões muito diferentes em uma única acusação, como se confusão administrativa, revogação posterior e minha participação pessoal em uma visita separada em 2025 fossem a mesma coisa. Não são.
O trabalho de campo de 2023, coordenado pela UFABC, e os desdobramentos administrativos posteriores precisam ser entendidos separadamente da minha visita comunitária de 2025, feita a convite.
Origens anteriores do projeto
É importante esclarecer que essa iniciativa de pesquisa com comunidades Yanomami do Marauiá não começou com minha chegada ao Brasil. O projeto foi apresentado pela primeira vez por colegas brasileiros em 2018, antes do meu envolvimento formal no esforço de pesquisa no Marauiá. Na mesma época, eu realizava pesquisa sobre o microbioma com comunidades Yanomami na região do Alto Orinoco, na Venezuela.
Durante essa fase inicial, a proposta foi apresentada por meio da Associação Kurikama, uma importante organização representativa Yanomami na região do Marauiá. Sob a coordenação de Samuel, da comunidade de Curuá, lideranças reunidas por meio da Associação Kurikama concordaram em apoiar o projeto e autorizaram a equipe de pesquisa a seguir com as submissões às autoridades brasileiras. Assim, o projeto tinha apoio livre, prévio e informado das lideranças Yanomami envolvidas naquele processo de consulta.
A pandemia de COVID-19, junto com mudanças posteriores no governo e na administração, atrasou o andamento do projeto. Como a liderança da Associação Kurikama mudou posteriormente, foi necessário renovar a consulta, em vez de presumir que as aprovações anteriores continuavam sendo suficientes.
Renovação da consulta e autorização
Quando o projeto foi retomado, participei pessoalmente de uma assembleia da Associação Kurikama em 2022 e apresentei a pesquisa diretamente às lideranças e representantes presentes. Expliquei os objetivos do projeto, respondi a perguntas e acolhi a discussão aberta.
Após deliberação, as lideranças presentes concordaram em renovar o apoio ao projeto sob a liderança de Otávio, então coordenador da Associação Kurikama e morador da comunidade de Bicho Açu.
Incluo esses detalhes porque eles importam. Este projeto não avançou de forma casual ou secreta. Tempo, viagens e recursos consideráveis foram investidos para que a pesquisa pudesse ser explicada diretamente, para que preocupações pudessem ser levantadas abertamente e para que as comunidades pudessem decidir por si mesmas se queriam que o projeto seguisse adiante.
Por que me envolvi
Meu envolvimento nesse trabalho foi pessoal e ético.
Como pesquisador Yanomami fazendo doutorado em ciência do microbioma, eu acreditava que, se uma pesquisa envolvendo os Yanomami fosse acontecer, então o povo Yanomami merecia mais do que o cumprimento formal de regras. Merecia explicação aberta e honesta, participação, capacitação, um caminho para entrar na própria ciência e repartição justa de benefícios em seus próprios termos.
Essa convicção mais tarde se tornou parte do nosso marco publicado para uma pesquisa ética do microbioma.
Diálogo com comunidades no Marauiá
Ao longo do tempo, desenvolvi relações com lideranças e famílias na região do Marauiá por meio de visitas repetidas, conversas e uma preocupação compartilhada com as rápidas transições de saúde que afetam muitas comunidades à medida que dietas, modos de vida e pressões externas continuam a mudar.
Conversei abertamente com lideranças sobre a ciência do microbioma, sobre para que servem as amostras e por que a pesquisa poderia ser importante para a saúde futura. Também enfatizei que a participação deve ser sempre voluntária e que as comunidades têm todo o direito de fazer perguntas, recusar participação ou pedir mais clareza.
Eu também estava respondendo a uma de suas principais preocupações éticas: eles não querem que a pesquisa aconteça ao redor deles sem oportunidades reais e significativas de participação e compreensão. Eles querem aprender. Os jovens querem aprender mais sobre ciência e pesquisa. Querem ter um papel mais ativo no processo de pesquisa, tanto dentro quanto fora do território.
Imagino representantes Yanomami no laboratório, cultivando cepas bacterianas, analisando sequências de DNA e desenvolvendo novas perguntas de pesquisa. Esse é o futuro pelo qual estou trabalhando.
As lideranças também queriam que atualizações e resultados da pesquisa fossem compartilhados diretamente com elas. Queriam que esse projeto de pesquisa fosse relacional, não transacional. Na minha experiência, instituições de pesquisa muitas vezes recebem o consentimento informado de comunidades Yanomami e, uma vez cumprida essa etapa, a perspectiva ética Yanomami pode rapidamente ficar em segundo plano.
É exatamente isso que muitos de nós, lideranças Yanomami e colaboradores de pesquisa, estamos tentando mudar.
Continuidade do diálogo após a visita de pesquisa autorizada
Ao longo do tempo, desenvolvi relações fortes com várias lideranças da região. Apoiei projetos comunitários que vão desde a construção de postos de saúde, incluindo um usado frequentemente pela SESAI, até sistemas de energia renovável e comunicação via satélite para escolas, postos de saúde e lideranças locais.
Parte desse apoio esteve conectada ao meu trabalho com a Yanomami Foundation, uma organização sem fins lucrativos que ajuda a mobilizar recursos para apoiar projetos liderados por Yanomami, prioridades comunitárias, educação e parcerias de longo prazo. A Fundação existe para ajudar a mobilizar apoio para comunidades Yanomami. Ela não é uma universidade nem uma instituição de pesquisa, e não realiza pesquisa científica nem coleta amostras biológicas. O projeto brasileiro de pesquisa do microbioma discutido aqui foi liderado pela UFABC, não pela Yanomami Foundation.
Quero deixar isso absolutamente claro: esse apoio nunca foi oferecido, prometido ou fornecido em troca de amostras biológicas, participação individual ou consentimento para pesquisa. Ele foi inteiramente separado da coleta de amostras.
Esses esforços fizeram parte de um compromisso de longo prazo com parentesco, responsabilidade social e prioridades definidas pelas próprias comunidades. Eles se basearam em pedidos de lideranças e foram realizados com apoiadores locais, lideranças Yanomami e colegas que somaram recursos e esforços para apoiar comunidades de acordo com prioridades definidas por elas.
Seria um erro tratar automaticamente toda forma de apoio comunitário como indução para pesquisa. Fazer isso corre o risco de interpretar de forma equivocada as responsabilidades relacionais que acompanham um compromisso de longo prazo. Ao mesmo tempo, entendo por que essa questão precisa ser tratada com cuidado. Por esse motivo, sempre mantive que o apoio às comunidades nunca deve estar condicionado à participação em pesquisa.
Em 2025, retornei à região do Marauiá após ser convidado por lideranças e parentes Yanomami na minha condição de membro da família Yanomami. Isso inclui Mauricio, da comunidade Ixima, que coordenou o Evento da Juventude realizado no shabono Pukima Beira. Esse convite está documentado.
O Evento da Juventude contou com a presença de outros representantes comunitários e institucionais, incluindo dois agentes de campo da FUNAI, um representante da SECOYA e o diretor do Conselho Tutelar. Durante essa visita, fiz uma apresentação educativa sobre ciência do microbioma e saúde. Respondi a perguntas e ajudei a esclarecer mal-entendidos. Também me reuni com lideranças de várias comunidades.
Fui acompanhado por Roni, de Tomoropiwei, atual coordenador da Associação Kurikama, que esteve presente no Evento da Juventude. Ele também manifestou apoio ao projeto de pesquisa, o que está documentado.
Depois do evento, ele pessoalmente forneceu transporte para várias outras comunidades e pediu que eu compartilhasse mais informações sobre a importância da pesquisa do microbioma.
Algumas lideranças demonstraram entusiasmo com a possibilidade de jovens Yanomami aprenderem ciência diretamente, visitarem laboratórios e, eventualmente, se tornarem pesquisadores. Outras levantaram preocupações ou fizeram perguntas, o que é natural e apropriado em qualquer processo sério de consulta.
Fui completamente aberto e transparente sobre esse projeto de pesquisa. Disse a eles que seria um processo longo. Também assegurei que faria tudo o que estivesse ao meu alcance, como cientista e como parente Yanomami, para garantir que a perspectiva ética Yanomami fosse respeitada e levada adiante.
No fim, esse diálogo foi significativo e positivo. Ele mostrou como a pesquisa deve ser relacional, colaborativa e respeitosa, princípios que também se alinham à colaboração participativa com comunidades, amplamente discutida na antropologia colaborativa. Com o apoio de inúmeras lideranças e membros das comunidades, todos documentados, minha intenção seguinte era apoiar a submissão de uma extensão ou emenda de autorização pelos canais brasileiros apropriados, para que qualquer diálogo futuro pudesse avançar de forma legal, transparente e com participação contínua dos Yanomami.
A origem da denúncia
Pouco depois da minha viagem de 2025, fui contatado por uma antropóloga que trabalha no DSEI Yanomami e Ye'kwana. Essa pessoa entrou em contato comigo pelo WhatsApp e disse que havia ouvido relatos diferentes de alguns indivíduos Yanomami e que tinha preocupações sobre o projeto.
Por meio dessa troca, entendi que um relatório sobre minhas atividades já havia sido escrito antes de eu ser contatado e antes que eu tivesse uma oportunidade real de responder. Esse detalhe importa. Se um relatório ajudou a formar preocupações posteriores ou contribuiu para uma denúncia formal, então esse relatório parece ter sido escrito antes que eu tivesse uma oportunidade real de esclarecer meu envolvimento, explicar o contexto ou descrever as discussões que ocorreram diretamente com lideranças e membros das comunidades na região do Marauiá.
Em uma região remota, com telecomunicações limitadas, muitas comunidades e perspectivas internas complexas, relatos diferentes não são surpreendentes. É exatamente por isso que a verificação cuidadosa importa.
Ainda assim, quando fui contatado, acolhi a oportunidade de diálogo. Respondi com respeito e em detalhes. Expliquei que o projeto geral de pesquisa era liderado no Brasil por meio da UFABC e que as aprovações haviam sido obtidas pelos sistemas apropriados. Também compartilhei esses materiais naquela troca. Expliquei ainda que meu próprio papel estava centrado na comunicação, na construção de relações e em garantir que as perspectivas Yanomami fossem representadas.
Também expliquei que, separadamente da viagem de pesquisa de 2023, eu havia participado recentemente do Evento da Juventude, me reunido com lideranças e sido convidado por comunidades que apoiavam a continuidade do diálogo.
Uma preocupação séria com o processo
O que me preocupa é o processo. Eu nunca havia encontrado pessoalmente a autora do relatório. Ela me disse que havia me visto de longe em uma comunidade Yanomami, mas não se aproximou de mim. Ela não participou do Evento da Juventude. Ela não esteve presente nas reuniões que tive com lideranças Yanomami, nem testemunhou o apoio, as perguntas, as preocupações e as discussões que ocorreram diretamente com lideranças e membros das comunidades na região do Marauiá.
Nunca tive acesso ao relatório dela, portanto não posso avaliar seu conteúdo completo.
Com base em nossa troca, porém, acredito que havia lacunas, omissões ou mal-entendidos que deveriam ter sido esclarecidos antes que a situação escalasse.
Durante essa troca, pedi a ela que compartilhasse contatos institucionais para que eu pudesse encaminhá-los à coordenadora da pesquisa e ajudar a fortalecer o diálogo pelos canais apropriados. Não me foi dado um caminho claro para revisar ou responder ao relatório em si. Também entendo que lideranças Yanomami, incluindo Roni, buscaram esclarecimentos sobre o relatório e seu conteúdo, mas não tenho conhecimento de que tenham recebido uma oportunidade real de revisá-lo ou respondê-lo.
Se alguém vai fazer alegações sérias que podem acionar medidas estatais, causar dano à reputação ou gerar uma denúncia formal, a justiça profissional básica exige entrar em contato com a pessoa envolvida, ouvir seu relato e verificar os fatos antes de escalar a situação.
Isso não aconteceu de maneira significativa. Até hoje, ainda não fui informado sobre qual instituição ou órgão apresentou oficialmente a denúncia. Não posso julgar os procedimentos internos das instituições brasileiras. Mas, do ponto de vista da justiça, da transparência e da prática ética de pesquisa, o processo foi profundamente preocupante.
Um relatório de campo parece ter sido moldado por informações incompletas e rumores não verificados, e uma denúncia oficial parece ter sido apresentada em Boa Vista com base nesse relatório. Qualquer que tenha sido o caminho administrativo formal, o problema ético permanece: alegações sérias avançaram em diferentes etapas antes que as pessoas mais diretamente implicadas, incluindo eu e as lideranças Yanomami envolvidas, recebessem uma oportunidade clara de esclarecer os fatos.
Rumores, escalada e inquérito
A partir daí, preocupações parecem ter circulado entre diferentes atores, eventualmente contribuindo para uma denúncia e, depois, para um inquérito do Ministério Público Federal. Eu não vi o relatório e não vi a denúncia completa feita contra mim. Com base na recomendação do MPF e na cobertura posterior da imprensa, porém, entendo que foram levantadas perguntas sobre se eu coletei amostras, realizei pesquisa, prestei serviços de saúde ou ofereci recursos em troca de participação durante minha visita de 2025 para participar do Evento da Juventude.
Nego categoricamente essas caracterizações.
Parte da cobertura da mídia ampliou a confusão. Uma reportagem da Globo inicialmente situou minhas atividades em Roraima, quando minha visita foi à região do Marauiá, no Amazonas. Isso foi posteriormente corrigido depois que informei o erro. Outra manchete no Amazonas Atual sugeriu que eu negava ter feito pesquisa em território Yanomami, quando a distinção real é que eu não realizei pesquisa durante minha visita de agosto de 2025. Essas manchetes contribuíram para uma percepção pública de que eu já havia sido considerado culpado de infrações éticas ou legais, quando, na verdade, o processo do MPF é um inquérito e eu fui solicitado a prestar esclarecimentos. Essas diferenças importam.
Também houve rumores de quid pro quo, sugerindo que eu teria trocado materiais por participação em pesquisa. Isso é categoricamente falso. Vai contra o próprio núcleo de como entendo e pratico a pesquisa ética.
É assim que rumores podem se transformar em preocupação institucional quando informações parciais circulam mais rápido do que uma verificação cuidadosa. O resultado foi uma narrativa pública sugerindo má conduta, quando a realidade era muito mais complexa e muito menos sensacionalista.
Como cientista, estou decepcionado. Como pessoa Yanomami, estou ferido.
O que tenho afirmado de forma consistente
Quero deixar claro que respeito o inquérito do MPF e seu processo. Em certo sentido, ele mostra que essa instituição leva a sério preocupações que podem afetar a proteção do povo Yanomami e dedicou tempo para avaliá-las. O MPF não me acusou formalmente de má conduta. O MPF pediu esclarecimentos. Respondi formalmente e com respeito.
Em minha resposta oficial ao MPF, acusei o recebimento da recomendação e declarei meu respeito pelo papel constitucional do MPF na proteção dos povos indígenas. Esclareci que, durante minha visita de agosto de 2025 ao território Yanomami, não realizei pesquisa científica nem coleta de dados, não coletei, transportei, armazenei ou enviei ao exterior quaisquer amostras biológicas humanas Yanomami, e não prestei atendimento clínico nem serviços de saúde.
Também afirmei que qualquer atividade futura envolvendo pesquisa científica, coleta de dados ou amostras biológicas em território Yanomami somente ocorrerá após a obtenção de todas as autorizações prévias e cumulativas exigidas pela legislação brasileira, incluindo, conforme aplicável, FUNAI, CONEP e CNPq.
Por que isso importa para além de mim
Isso não diz respeito apenas a uma denúncia ou a um mal-entendido.
Levanta uma questão maior: quando pesquisadores ligados a povos indígenas tentam construir novos modelos de colaboração ética, quem é ouvido, quem é consultado e quem tem o direito de definir legitimidade?
Acredito profundamente em processos legais, transparência e salvaguardas éticas. Mas as salvaguardas falham quando silenciam o apoio comunitário, ignoram o diálogo direto ou reduzem a agência indígena a algo que outros interpretam em seu nome.
Continuo comprometido com uma colaboração respeitosa com instituições brasileiras, com lideranças Yanomami e com qualquer parceiro sério que atue de boa-fé.
Minha perspectiva vem de uma posição rara dentro do projeto. Até onde sei, sou a única pessoa Yanomami na equipe de pesquisa da UFABC que esteve envolvida em todo o arco deste trabalho: consulta prévia, diálogo em campo, coleta de amostras, processamento em laboratório, análise de dados, reflexão ética, retorno direto às comunidades para compartilhar resultados e publicação. Carreguei essa responsabilidade tanto na Venezuela quanto no Brasil.
Vou me defender quando narrativas enganosas prejudicarem meu nome e, mais importante, bloquearem oportunidades que as próprias comunidades Yanomami queriam buscar.
Continuarei a respeitar e promover esta abordagem ética centrada nos Yanomami.
E quanto às vozes do povo Yanomami?
Quando as comunidades do Marauiá ouviram falar da denúncia contra mim e do inquérito do MPF, muitas ficaram chateadas e indignadas.
Roni, atual coordenador da Associação Kurikama, expressou sua decepção pelo fato de ele e as lideranças Kurikama não terem sido consultados antes que uma agente externa escrevesse um relatório que afetou eles e suas comunidades. Ele também expressou preocupação de que uma denúncia envolvendo a Associação Kurikama e as comunidades do Marauiá pareça ter sido apresentada sem seu conhecimento ou consentimento.
Não posso falar plenamente por eles. Eles falarão por si mesmos. A Associação Kurikama está preparando sua própria manifestação.
Mas posso dizer isto: os Yanomami não são figuras passivas nesta história. Não são simplesmente sujeitos a serem protegidos por terceiros, interpretados por terceiros ou representados por terceiros. São pessoas com vozes, memórias, divergências, autoridade e agência.
Qualquer processo ético conduzido em nome deles também deve abrir espaço para suas próprias palavras.
Não escrevi esta manifestação para atacar instituições, jornalistas, antropólogos ou qualquer pessoa que genuinamente busque proteger o povo Yanomami. A proteção é necessária. O escrutínio ético é necessário. A legislação brasileira deve ser respeitada.
Mas a proteção não pode se transformar em paternalismo, e o escrutínio não pode se transformar em rumor disfarçado de fato.
Se este momento deve significar algo além de dano reputacional, então ele deve nos levar a um padrão melhor: um padrão que respeite a legislação brasileira, centralize as vozes Yanomami, apoie a participação Yanomami na ciência e permita que o povo Yanomami defina seu próprio futuro.
Continuarei este trabalho com humildade, transparência e determinação, como cientista e como Ayõpëwë, um parente Yanomami que permanece comprometido com meu povo.
David Ayõpëwë Good
Pesquisador Yanomami | Doutorando, Universidade de Guelph
Fundador e Diretor Executivo, Yanomami Foundation
Membro da comunidade Irokaiteri, Alto Orinoco
Abril de 2026


